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MAIS QUE MODINHA, É RECONHECIMENTO E CONSCIENTIZAÇÃO

20/08/2017

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Há 63 anos o concurso de Miss Brasil tem por objetivo eleger a mulher mais bonita do país, a representante da beleza brasileira no Miss Universo. E, com a nossa miscigenação nacional, o Brasil é um dos privilegiados países no mundo que podem eleger diversos biótipos. Contudo, o próprio concurso nunca explorou de fato esse diferencial. Ao longo dos anos, vimos observando escolhas menos representativas e mais tendenciosas, seja com objetivo de ganhar o Miss Universo ou de manter um estereótipo de beleza baseado em um biótipo um tanto distante da nossa realidade. Apenas em 1986 o concurso elegeu sua primeira candidata negra, Deise Nunes.

O paradigma finalmente parece estar sendo quebrado. Temos o orgulho de dizer que, o concurso elegeu ontem, 19 e agosto de 2017, a negra Monalysa Alcântara, representante do estado do Piauí, que foi coroada por Raíssa Santana, Miss Brasil 2016, também mulher negra.

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Mulher brasileira, 18 anos, negra, estudante de administração, Monalysa já deixava explícito antes da grande noite que para encarar o Miss Universo a receita seria assumir a própria identidade e unicidade de “uma mulher nordestina, que passou por diversas coisas, muitas dores que fizeram ser quem eu sou hoje”, dizia.

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Confesso que só esperava outra Miss Brasil negra daqui há uns 15 anos. Felizmente a noite de ontem foi uma ótima surpresa e é prova de que preconceitos estão sendo quebrados. Estamos subindo degraus e alcançando vitórias.

Jardel Júlio


Massogona Sylla – arte e feminismo negro

03/08/2017

 

A influência no trabalho de Massogona Sylla passa por importantes nomes da colagem de várias épocas, desde Pablo Picasso a David LaChapelle, passando por Andy Warhol, Jean-Michel Basquiat e Jean-Paul Goude. Nas peças da artista, a técnica – de incorporar ilimitadas e variáveis materialidades nas obras de arte – difundida por nomes consagrados encontra a sensibilidade e a força de feministas negras como Angela Davis, cujas vozes ganham cada vez mais força na atualidade. Assim, a arte feita por Sylla nos sensibiliza duplamente, pela estética e pelo discurso.

O trabalho da artista desafia o olhar sobre o lugar das mulheres na sociedade e sua representação na mídia. Tal agudeza e singularidade Sylla credita à própria trajetória. “De fato meu trabalho é repleto de mensagens. Sou feminista e me envolvo na causa. As atrocidades cometidas contra as mulheres no mundo é algo que me choca. Sou contra essa violência e o meu trabalho é falar a respeito. Minha arte é também uma homenagem à minha mãe que eu perdi cedo, é um tributo a todas as mulheres”, explica em uma das entrevistas disponíveis em seu site de trabalho.

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Nascida na França, Massogona Sylla viveu até os 18 anos na Costa do Marfim. De volta à cidade natal, Paris, se interessou por fotografia, começou a fazer aulas e foi assim que descobriu a colagem. A poesia visual de Sylla dá-se por meio do casamento entre cores, formas e texturas que, nos trabalhos, são deslocadas para distante do cliché embora claramente relacionem-se com nossos cotidianos. “Minha história com a colagem é uma história de paixão. Eu amo a colagem porque eu jogo com os materiais, corto, transformo, colo, repinto sobre, adiciono… Tenho uma feira de opções na minha cabeça! Muitas vezes eu digo a mim mesma: eu não estou sozinha, sou como Alice no País das Maravilhas (risos)”, brinca.

 

Para conhecer mais dos trabalhos e projeto da artista cujo trabalho é literalmente a cara do nosso blog, é seguir o caminho do click 😉

Ana Paula Vitorio


É claro que batemos um papo (daqueles que fortalecem, inspiram e revigoram a gente) com a escritora Cristiane Sobral e aqui você pode ler tudo o que rolou na entrevista que ela concedeu ao Conceito.etc

17/07/2017

Com quatro livros publicados e milhares de exemplares vendidos, a escritora e atriz Cristiane Sobral estreou na literatura em 2000, nos Cadernos Negros – série dedicada à produção literária de autores afro-brasileiros, veículo para o qual continua a escrever. É mestre em Artes pela Universidade de Brasília (UnB), instituição na qual foi a primeira mulher negra a concluir a graduação em Interpretação Teatral. Nascida no Rio, vivendo em Brasília desde os 16 anos, Sobral considera a leitura seja sua principal forma de contato com o mundo desde os 3 anos de idade, quando foi alfabetizada pela mãe que era professora. Conta que, a exemplo do pai, lia tudo que via pela frente, livros ganhados, revistas, bula de remédio… “A primeira riqueza que tomei posse na minha vida foi o contato com as letras. Ali descobri um mundo mágico, fantástico, onde eu podia existir, ao contrário de toda a realidade de opressão [racial] sob a qual eu vivia. Foi uma maneira de entender minha própria existência, o mundo que me cerca e de compreender [a leitura e a literatura] como uma forma de afirmação e empoderamento desde os meus primeiros passos”, relata.

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Foto: Psiu Poético

É claro que batemos um papo (daqueles que fortalecem, inspiram e revigoram a gente) com Cristiane Sobral e aqui você pode ler tudo o que rolou na entrevista exclusiva que a escritora concedeu ao Conceito.etc 😀

Conceito.etc – Na sua opinião, quais são as principais especificidades da literatura negra, ou das literaturas negras produzidas, no país e como esses textos relacionam-se com aquilo que é conhecido como literatura brasileira?

Cristiane SobralGosto muito da fala do Brecht em que ele diz que todo teatro é político porque políticas são todas as ações do homem. Não podemos ser inocentes e dizer que não estamos produzindo uma literatura que seja engajada. Na minha opinião, aliás, toda literatura é engajada. Inclusive a literatura brasileira, majoritariamente, tem sido engajada no sentido de invisibilizar ou estereotipar negros e negras. Por que a gente coloca a nossa literatura como literatura negra? Porque o conceito de uma literatura brasileira que se quer universal não nos contempla. Nao abarca nossa existência, muito menos nossas especificidades. (…) Quando falamos de literatura negra, estamos falando de linguagem. É uma literatura que tem um processo intenso de construção de linguagem. São autores, como Conceição Evaristo e Mirian Alves, por exemplo, que têm refinamento e inteligência. O racismo é tão cruel que as pessoas olham para a mulher preta e logo pensam “ela não deve escrever bem”. Para tirar essas pessoas desse lugar é muito difícil.

Conceito.etc – Você sempre deixa claro que no caso da literatura feita por mulheres negras hoje no Brasil, não apenas o grito, a denúncia, importa, mas que estamos falando também de um fazer literário. Há, portanto preocupação com os aspectos estéticos daquilo que é publicado. Como funciona pra você esse processo de experimentação da linguagem e criação estética na sua obra?  

Cristiane SobralPra mim o processo parte do estudo sistematizado. Estou sempre lendo e relendo obras, pegando indicações de autores que ainda não conheço. Funciona pra mim  busca por estímulos diferentes. Às vezes um filme, uma música, uma notícia de jornal. No meu próximo livro de poesias, que se chamará “Terra Negra”, por exemplo, há poesias criadas a partir de notícias de jornal. São assuntos específicos que eu estava investigando e sobre os quais eu queria falar [relacionados ao genocídio negro]. [É preciso] constituir o tecido literário de maneira que possa provocar sentidos. Algo que os escritores em geral fazem é a pesquisa e nós fazemos também. Eu vejo isso mesmo no sentido da antropofagia, é preciso ler tudo e selecionar o que você quer ou não comer.

Conceito.etc – Sobre os atravessamentos entre literatura e teatro que acontecem no seu trabalho, sobre a inscrição do corpo na escrita. Como você compreende esse corpo que é presentificado não só no produto literário, mas no ato de escrever?

Cristiane SobralAlgo que me caracteriza como escritora é a parceria que tenho desde sempre com o teatro. Por causa disso, minha maneira de ver a palavra se desloca bastante. No teatro, nós temos esse contato íntimo com a palavra, com cada som, com cada vírgula, com cada fonema, e isso precisa ser administrado na relação com quem lê. O foco é não escrever para me satisfazer. Todo escritor tem um leitor imaginário o qual ele quer alcançar. Então pensando essa coisa do teatro, o protagonista não é o ator, o protagonista é sempre o público porque é para ele que é produzida a obra. Então penso nessas vozes que estão esperando pelo contato com essa poesia.

“Estamos resistindo há muito tempo, é chegada a hora da anunciação. A não inclusão de negros e negras na vida pública do país gera consequências para todos e não exclusivamente para pretos e pardos. A responsabilidade é de todos.”

Conceito.etc – Como você lida com a crítica que tenta desvalorizar a literatura feita por mulheres negras, acusando-a de panfletária e ignorando isso que você aponta, toda essa preocupação que autoras como você têm com a pesquisa, com a investigação da linguagem etc.?

Cristiane SobralQuem faz pergunta sobre linguagem? Primeiro é importante levantar essa questão. Quem está interessado em saber de que maneira nós criamos? Na maioria das vezes, nossos textos nem são lidos e os julgamentos partem do senso comum de que trata de um autor negro que, querendo desabafar vai lá pro papel e escreve, e que isso é a literatura dele. Não dá para dar crédito a esse tipo de crítica porque sabemos de onde vem e que o objetivo é respaldar ainda mais o racismo, importa a eles que cada vez menos escritores negros estejam no cenário nacional. O que temos como resposta é o nosso leitor. É cada vez maior o número de pessoas que compram nossos livros, que divulgam e geram mídia espontânea. Outro ponto também é o fato de que o panfletário, se elaborado, cria um tipo de estética, que seria uma estética do discurso. Não é o discurso por si só, mas um discurso que passa por um processo de constituição e que gera uma estética diferenciada que, na minha opinião, é justamente essa da literatura negra. As academias ainda não tiveram tempo de estudar sobre isso. (…) Seria interessante um olhar também para essa literatura como fruição e isso é algo que não temos. A obra de arte não necessita de explicação, a obra tem seu sentido, fala por si só, não precisa explicar a que veio. Carlos Drummond de Andrade não precisou explicar a que veio, Clarice Lispector também não, apenas produziram suas obras. Então que nós nos sintamos também no direito de ter essa autonomia para produzir o nosso trabalho. Resistência não é suficiente. Estamos resistindo há muito tempo, é chegada a hora da anunciação. Isso é importante porque é preciso que todos entendam que a situação do negro brasileiro é uma situação do Brasil.  A não inclusão de negros e negras na vida pública do país gera consequências para todos e não exclusivamente para pretos e pardos. A responsabilidade é de todos.

Ana Paula Vitorio


Das quadrilhas nas escolas às baladas sertanejas: o problema é ser negra

29/06/2017

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Nunca dancei quadrilha na escola. E quando conto em roda de amigos todos ficam abismados e perguntam “Gente, por quê?”, “Não gostava?”, “Era tímida?”. Na verdade não trata disso, nunca respondi nas conversa mas vou desenhar aqui: Nunca dancei quadrilha porque sou negra! Hoje não gosto de baladas sertanejas e é justamente por isso, porque me remete àquela época da escola em que só as meninas brancas (principalmente as loiras) tinham pares para dançar. O pior das baladas sertanejas, na verdade, é porque nesses ambientes é quando salta aos meus olhos o fato de que nem eu nem a sociedade superamos o racismo. Os homens – negros e brancos – continuam a entender a mulher branca atreladas aos estereótipos da beleza, inteligência, educação, status social elevado etc. e, como na minha época de escola (que na verdade foi ontem, década de 90), a nós mulheres negras fica o lugar da feiura, burrice, pobreza e sexo sujo (dá pra pegar se for pra ser lanchinho da madrugada).

Um dos pontos graves disso, acho, é a questão da criança. Como tão cedo já somos tão cruelmente atingidas e como tão cedo as crianças já sabem ser cruéis! Não esqueço quando eu, no segundo período com 5 anos, me arrumei toda, me senti linda, achei que iria dançar com o menino com quem ensaiei e na hora da quadrilha ele e o amigo disputaram quase a tapas a menina loira de cabelos na cintura. A professora arrumou um jeito dela dançar com os dois, um pouquinho com cada, e pra mim arrumou outra menina sem par para que decidíssemos quem faria o papel do homem. Lembro que me recusei a dançar, minha mãe e minha tia dizendo “Dance com a coleguinha, não tem problema, o importante é dançar”. Outros poucos episódios semelhantes aconteceram ao longo da vida escolar, mas bem poucos, porque raramente eu permitia que crescesse em mim a vontade de dançar, cortava logo o mal pela raiz. Quando iniciavam o início dos ensaios logo dizia que preferia ficar na sala estudando.

Depois disso veio o sertanejo. Nunca gostei muito, mas minhas amigas adoravam então lá ia eu me permitir ter esperança de me divertir. Balada é balada, todo mundo vai pra pegação. E na balada sertaneja a pegação geralmente começa com a dança… E era nessas horas que eu voltava ao problema da quadrilha. Enquanto minhas amigas – loiras e morenas – exercitavam as mil maneiras de dizer não e as mil e uma maneiras de flertar eu só conseguia uma dança lá pelas quatro da manhã quando o cara já estava bêbado o suficiente para não se importar com quem estava dançando. E o pior é que eu dançava! Pior que isso, na semana seguinte eu colocava minha maquiagem cara, meu sapato que doía o pé mas me deixava poderosa e ia de novo pro maldito sertanejo, a esperança custou a morrer. Na verdade o que custou a acontecer foi eu admitir que as coisas não mudariam tão cedo e que o problema era muito maior que eu, que os poucos caras do sertanejo e que os pouquíssimos meninos da escola…

Custei a entender, mas aos 32 anos entendi. Primeiro a gente usa a desculpa da mulher bem sucedida. “Ah o problema é que as mulheres com graduação se casam menos”, “ah o problema é que mulheres bem sucedidas afastam os homens” blá blá blá. Mas o caso da mulher negra é bem específico. A questão da classe e do sucesso profissional são secundários, o que importa, o que dificulta, é a cor da pele, é a textura dos cabelos, é o tamanho da anca. O que importa é a herança da escravidão, são os rastros, ainda muito vivos, das visitas às senzalas feitas pelos senhores das fazendas, da redução dos nossos corpos à objeto a serviço (do sexo, do trabalho doméstico, do entretenimento alheio etc.) e da nossa completa anulação enquanto mulheres, enquanto seres humanos.

Ana Paula Vitorio


SAÚDE CAPILAR – NUTRIÇÃO DE DENTRO PARA FORA

11/06/2017

Como o corpo, os fios precisam de cuidados especiais para se manter fortes, bonitos, sedosos e saudáveis. A alimentação, como os hábitos, estão diretamente relacionados com a boa aparência e crescimento capilar. Para o crescimento, desenvolvimento das fibras capilares e diminuição de quedas é importante investir na nutrição que ocorre de dentro para fora através da hidratação (consumo de água) e da ingestão de alimentos fontes de micronutrientes.

Esses micronutrientes são necessários para a manutenção do organismo e, embora sejam requeridos em pequenas quantidades (de miligramas a microgramas), eles são as vitaminas e os minerais. Essenciais, o seu déficit pode provocar doenças ou disfunções e o excesso, intoxicações. Também existem suplementações que são próprias para essa finalidade, no entanto, a primeira recomendação é atingir tais níveis através da alimentação.

 

 

 

Os fios são formados principalmente por queratina e melanina. A queratina forma a haste fibrosa. Isso significa que o comprimento do cabelo e a cor dos fios são definidos pela melanina. Na porção do couro cabeludo, há um folículo piloso sebáceo onde emerge cada fio e é ele o local de produção do cabelo pelas glândulas sebáceas e a queratina, é onde são  produzidas a oleosidade natural e o músculo eretor do pelo. A formação do cabelo é determinada pelo material genético de cada indivíduo. É ele o responsável pela expressão do fenótipo do fio ser cacheado ou liso. Se o folículo for redondo, ele dá origem a um fio liso. Se for oval, o cabelo cresce ondulado. Se for achatado, o cabelo é cacheado ou crespo.

Descobrimos cada dia mais que há beleza em todos os tipos de cabelo. Então preste a atenção na lista de nutrientes que preparamos para evitar que, qualquer que seja seu tipo de cabelo, ele não fique frágil, quebradiço ou sem brilho.

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Ferro: Encontrado em alimentos como: carnes vermelhas, miúdos, brócolis, espinafre, lentilha, feijão, a deficiência desse mineral pode causar queda de cabelo.

Zinco: Estimula a multiplicação das células, favorecendo o crescimento e fortalecimento dos fios, além de reduzir a oleosidade. Principais fontes: carnes, fígado, gema de ovo, grãos integrais, crustáceos, farelos de trigo, nozes.

Magnésio: É essencial para formação das proteínas que constituem os fios, assim como a queratina. Ele pode ser encontrado na carambola, melão, abacaxi, nozes e frutos do mar.

Potássio: Mantém a flexibilidade e a hidratação e está presente nos alimentos como carnes magras, amêndoa, uva e semente de girassol.

Cobre: Ajuda no crescimento e age nos pigmentos que dão cor aos fios. Principais fontes: nozes, castanha, legumes, grãos integrais, crustáceos e fígado.

Cálcio: A falta desse mineral deixa os fios mais quebradiços e finos, por isso o consumo do leite e seus derivados, sardinha e salmão são tão importantes.

Proteínas: Estimulam o crescimento e o fortalecimento dos cabelos. Principais fontes: carnes vermelhas, frango, peixe, ovos, grãos, queijos e derivados.

Vitamina C: Antioxidante que contribui para o bom funcionamento das células do fio. Principais fontes: morango, laranja, limão, acerola, tomate e folhas verdes.

Vitamina E: Previne o aparecimento dos radicais livres e auxilia na formação de um novo cabelo. Fontes: óleos vegetais, nozes, amendoim, peixes, verduras e gema de ovo.

Ômega 3 e o ômega 6: Hidratam e dão força e brilho aos fios. Suas principais fontes são peixe, linhaça, vegetais verdes escuros, nozes, amêndoas, leguminosas e algas.

Iara Ferreira


ARTE, MILITÂNCIA E OS CORPOS DAS MINAS DE MINAS

03/06/2017

Nos últimos dias, Juiz de Fora viu o empoderamento feminino como pauta em seu aniversário de 167 anos.  Na programação especial dos eventos na cidade que é considerada um dos importantes polos culturais e econômicos de Minas Gerais, uma exposição chama a atenção por relacionar arte e militância feminista. Corpos de Minas chamou a atenção e cumpriu o objetivo de “promover o empoderamento feminino através de frases em pintura corporal nas mulheres mineiras que se dispõem a superar seus limites estéticos de exposição perante a sociedade”.

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Laura Rosa Gomes é a fotógrafa e idealizadora do projeto que, desde 2016, atua embasado na pauta da visibilidade feminina. Confira nossa conversa com a artista visual que, como nós, encara de frente as barreiras institucionalizadas que são impostas às mulheres em uma sociedade como a nossa:

Laura Rosa Gomes

Laura Rosa Gomes

Conceito.etc – Quem  é Laura? 

Laura – Uma alma inquieta que passou a questionar e observar a opressão da mulher na sociedade. Tenho um outro enviesamento nesta questão pois sou  uma mulher negra.

Conceito.etc – Fotografar é um hobby ou uma arte?

Laura – Creio  que um pouco dos dois. Hobby  quando  me traz leveza, enquanto minha não-profissão (não ganho a vida com fotografia e nem tenho formação pra isso) e arte quando faço pensar, quando vejo que me fiz compreender, quando vejo sorrisos de apoio.

Conceito.etc – O que te motivou a fotografar mulheres?

Laura – A compra de uma câmera dlsr  [câmera profissional] me fez ter interesse em produzir algo em relação ao feminino, por ser um lugar que eu ocupo e por acreditar que as mulheres ao meu redor topariam. Minhas reflexões me levaram ao nu e minha primeira candidata à modelo sugeriu a angulação através de frases. Essa primeira modelo nunca fotografou comigo e hoje morre de vergonha pois até montei uma exposição com a ideia que trabalhamos juntas. Hoje em dia já fotografo mulheres que nunca havia visto na vida.

Conceito.etc – Como elas reagiam a seu convite?

Laura – Acho que tendo um portfólio hoje as coisas são mais fáceis. Antes eu trabalhava com pessoas próximas, morei 4 anos em outra cidade pra estudar. Depois do meu regresso à Juiz de Fora, passei a gostar de receber pessoas queridas em minha casa (onde fotografo num estúdio improvisado) também com o intuito de revê-las e trocar ideias com calma, elas já compareciam cientes das fotos. Conversávamos, tomávamos um vinho e fazíamos o trabalho. Era muito legal ver essa recepção e sororidade. Daí essas amigas começaram a publicar as fotografias por acreditar em mim, no trabalho e começaram a surgir mulheres interessadas que eu não conhecia. Elas se sentiam seguras pois já havia um trabalho exposto. Comecei a me conectar com encontros voltados para mulheres e discussão sobre nosso lugar na sociedade e algumas pessoas envolvidas com a causa me procuraram e recomendaram o projeto, isso também me ajudou a ganhar visibilidade.

Exposição Corpos de Minas

Corpos de Minas em exposição no CCBB

Conceito.etc – As fotografias mostram mulheres com ombros, costas e colos nus. Além de ser o local para a escrita das frases, há algum outro significado?

Laura – A proposta estética não é  inovadora. A primeira modelo (que não foi modelo) a qual me referi anteriormente me enviou fotos desse tipo e vi que era um trabalho que precisava crescer pela causa feminista. São  várias angulações dispostas na internet: partes sexuais à mostra, frases hora agressivas, hora palavras soltas, fotos que traziam o contato com a natureza, etc. Eu busquei um fundo branco (para que  eu não ficasse limitada quanto  à mobilidade do trabalho) e frases poéticas com inspirações no universo feminino. Quanto ao corpo, as mulheres fotografadas se mostram como querem. Acabei seguindo um padrão pois ele veem algo pronto feito por mim e querem parecido. Para fotografar muitas delas ficam totalmente nuas e outras fazem até mesmo ajeitando a blusa,  sem tirar. O importante é que elas fiquem à vontade.

Conceito.etc – Como foram feitas as escolhas e produções das frases?

Laura – Pessoalmente as frases são o elemento que me exigem estudo. E essa é  a grande realização pessoal do projeto. Busco geralmente frases de outras mulheres,  quando fujo disso  é  porque a frase proferida por homens foi muito feliz e pontual. Falei sobre a necessidade do estudo e conhecimento para que as colocações não sejam ambíguas e sem fundamento específico. Costumo preparar frases numa lista para que as mulheres cheguem e escolham.  Já aconteceu de mulher branca escolher frase de feminismo negro e eu não permitir o uso, por exemplo. Acho importante esse tipo de conhecimento prévio da minha parte. O que sempre me encanta é que elas escolhem algo dentro da sua história e enquanto eu faço as pinturas, vão me contando sobre o acontecido. Tem noção  do que é pintar o seio de uma mulher que já sofreu abuso enquanto ela relata o sofrimento? Pra mim isso é no mínimo muito marcante.

 

 

 

Conceito.etc – Há alguma foto ou frase que teve significado especial para você?

Laura – Não há uma foto que não seja. Tenho uma amiga querida que quando eu fui fotografá-la já tinha a frase escolhida e eu sabia todo o sofrimento que ela carregava de um relacionamento abusivo. Uma outra que sofreu tentativa de estupro na rua e escolheu uma única palavra para utilizar e a palavra tem a ver com renovação  e não ódio. Uma outra foi com a filhinha pois ela é a única responsável pela criança e a frase foi relacionada à maternidade. Tantas outras jovens vinham até mim solicitando algo relacionado ao assédio nas ruas. Enfim… Fico emocionada representando cada sentimento.

Conceito.etc – Como é, geralmente, a reação do público em relação às fotografias e ao contexto em que elas elas são inseridas?

Laura – Sempre fui muito elogiada e tento tomar cuidado para não me envaidecer pois quero mesmo prestar este serviço às mulheres. Expor neste final de semana na minha cidade do coração foi muito gratificante e me possibilitou estar presente durante quase todo o evento. Teve uma menina jovem, com uniforme de escola que lia as frases uma a uma e depois batia no peito e falava “isso mesmo, eu sou assim também” e eu fiquei muito mexida. Ela era totalmente desconhecida e não sabia que o trabalho era meu.

 

 

 

Conceito.etc – Quais seus planos agora?

Laura – Seguir com o projeto, organizar um calendário para conseguir atender à procura e expor sempre que possível. O nome do projeto abrange todo o estado.

Conceito.etc – Qual sua mensagem para nossos visitantes que, como você, amam fotografia?

Laura – Sua visão de mundo é propagada e eternizada através da fotografia. Parece clichê mas experimente expor seu trabalho até mesmo na internet: as interações são incríveis.

Iara Ferreira


A PELE QUE EU HABITO NÃO É NUDE

27/05/2017

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O Nude é a cor tendência na atualidade, cor delicada, queridinha das famosas e perfeitos para qualquer look, vieram  para ficar. A cor é considerada super elegante além de ajudar a alongar a silhueta. Há quem diga até que tem tudo para tomar o lugar do pretinho básico. Será?

Qual criança nunca teve uma caixa de lápis de cor? Mesmo que seja a mais simples, ali sempre continha umas 12 cores: Amarelo, Laranja, Vermelho, Verde Escuro, Verde Claro, Rosa, Azul Claro, Azul Escuro, Marrom, Preto, Roxo e Cor de Pele. Cor de quê? Imagine uma criança negra no contexto escolar, tendo que pintar seus desenhos que representavam humanos da cor de pele? Cor de quem?

Atualmente com o empoderamento negro esse quadro pode estar mudando, graças a atuação das escolas, mídia e dos próprios pais que estão mais conscientes e integrados ao movimento negro. Essa cor de pele, é o Nude atual. E quando um corpo negro decide usar nude? Seja uma roupa, esmalte, sapato, maquiagem etc. Essa cor evidenciada por corpos brancos. A acepção de Nude oriunda da palavra Nu, a cor nude é aquilo que te deixa ‘‘nu’’, transparente, off-white, do rosa pálido ao dourado e cores um tanto esmaecidas.

A negra, poderosa, e elegante Michelle Obama no encontro com o primeiro-ministro da Índia em Novembro de 2010, foi bombardeada de comentários negativos da indústria da moda porque usou “Nude”. A professora de estudos culturais na London College of Fashion, Reina Lewis, declarou em entrevista a uma revista de moda Norte Americana: “Michelle Obama estava incrível”, elogia.  “Escolheu um vestido fabuloso. Porém, na pele dela, o nude é revelado como uma cor, bem longe de ser algo neutro, como propõe o significado da palavra”, continua Lewis.

O que é questionado aqui não se resume à definição da palavra Nude e nem a como o corpo negro se comporta diante de novas tendências, não direcionadas à sua etnia, mas sim à maneira como as roupas, acessórios  e maquiagens em tons de “Nude” têm sido apresentadas em editoriais de moda. O corpo negro vem criando a sua própria percepção, conceito, e utilização referente às mais diversas cores e tons. Exemplo são os produtos direcionados à  afirmação da cultura negra, como linhas de  maquiagem  roupas, esmaltes e acessórios.

Iara Ferreira


MUITO ALÉM DE UMA BELA TRANÇA OU UM FIVE O’CLOCK TEA

16/05/2017

Desde criança eu sempre admirei a função dos dirigentes nacionais. Ser presidente deve mesmo ser algo difícil, se muitos de nós não consegue administrar a própria casa, como é possível gerenciar um país? Por outro lado, enquanto o presidente se desdobra em suas funções, sua mulher está lá, por conta de lojas de grife, com um sorriso sempre preparado para os flashes ou preocupada com o Five o clock tea.

Em 2008, alguém fez essa minha ideia cair por terra. Na campanha presidencial de um dos países mais importantes do mundo, se não o mais importante, eu vi uma esposa que não surgiu após o resultado das eleições, mas esteve presente o tempo todo.

Mulher, 52 anos, advogada, socióloga, esposa, mãe e muito mais, Michele Obama mostrou ao mundo que uma primeira dama vai muito além de uma imagem superficial e que suas ações podem e fazem a diferença.

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Na campanha ela se fez presente, trabalhou junto, discursou; após eleita, porque sim, acreditamos que ela ganhou a eleição também, Michelle não se acomodou nos lençóis da Casa Branca. Foram oito anos de engajamento direto em trabalhos sociais e ambientais, de discursos em escolas, de visitas a hospitais e abrigos de desalojados, de ações promotoras de educação, de defesa ao serviço público.

E, apesar de ser criticada, por ter atitudes contrárias à comum passividade de uma primeira dama, Michelle fez-se exemplo. Encorajou e incentivou, especialmente as mulheres, valorizando seu potencial.

A Sra Obama mostrou ao mundo que se pode ser bela, ENGAJADA e dor lar; do palco,do palanque, do púlpito… Que trabalhar junto é somar forças; que não deve estar à frente ou atrás mas, ao lado do companheiro. Michelle Obama ensinou que você pode ser apenas uma primeira dama ou que você pode ser, A primeira dama: e escolha é sua.

Jardel Júlio


Realeza na cabeça

06/05/2017

Com o passar dos tempos, os negros de todo o mundo vêm aprendendo, afirmando e, porque não dizer, descobrindo o valor da pele preta. Esse tal empoderamento que tanto se fala, vem surgindo com muita força; motivo de discussão e tema de debates ele não poderia ficar de fora do nosso estilo.

Cabelo black power, tranças, cores e turbantes… É, esse negócio não sai mais da nossa cabeça… Grande, pequeno, liso ou com adereços os turbantes chegaram para ficar. Um pedaço de tecido e criatividade são o ponto de partida para explorar esse universo  de cabeças enfeitadas. Ele destaca, ele empodera, embeleza, traz atitude, enriquece. Com um turbante você pode chegar onde quiser!

 

 

 

Na história, não se define bem a origem dos turbantes, o que se sabe é que eles são usados há milhares de anos e começaram a ser vistos na região do Oriente Médio. Contudo, a sua utilização possui diversos significados. Dependendo de onde você está, ele pode representar sua posição social, sexualidade, cultura, religiosidade, tribo e até humor momentâneo.

 

 

 

Aqui no Brasil, a sociedade ainda está se acostumando. Não é difícil pegar alguém observando com um olhar interrogativo direcionado a pessoa que usa um turbante. Contudo, não devemos nos importar com isso, mas sim com a altivez que nossas coroas de pano nos trazem. O adereço é unissex, qualquer um pode usar, só precisa ter estilo e vontade de ser quem é.

 

 

 

Jardel Júlio


Dancers After Dark torna visível e tátil a perseverança esculpida no corpo de Michaela DePrince

O ballet clássico é conhecido pelo rigor que leva à sutileza, pela técnica que conduz ao sublime. No caso de Michaela DePrince, mais que os desafios próprios da arte, tornar-se bailarina exigiu ainda enfrentar a ignorância, a pobreza, a orfandade e o preconceito. Michaela tornou-se uma das mais importantes bailarinas negras da contemporaneidade. Sua dedicação, talento e persistência questionam tradições e convenções culturais. É hoje, com 21 anos, um dos principais nomes da Dutch National Ballet’s.

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Já não se questiona o talento de Michaela quando seu corpo está em movimento e materializa o ballet. Mas estabelecer-se não é suficiente. Este mesmo corpo reinvidica a quebra de fronteiras entre as artes quando a bailarina surge como uma das protagonistas de Dancers After Dark. No fotolivro, lançado este ano por Jordan Matter, os corpos de bailarinos, esculpidos entre entre suor e técnica, são detalhados pela luz em meio aos cenários noturnos das metrópoles mundiais.

“O que se vê gravado nos corpos dos bailarinos é a extraordinária perseverança. E quando despojado de suas roupas vemos cada camada de músculo e cada sutileza de expressão física. Eles são uma personificação inspiradora de intenso compromisso com a paixão de uma vida”, diz Mattler em entrevista ao New York Times.

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No trabalho, que se faz contemporâneo pelas referências que condensa e pelas questões políticas no qual se insere, o ballet desenvolve-se no folhear das páginas. A obra em fotolivro salienta, torna visível e tátil a história de Michaela DePrince embora ela não seja a única figura cujas formas se veem ali capturadas.

Ana Paula Vitorio


Tássia Reis – necessária – para ouvir, ver e sentir

19/04/2017      

Confira a entrevista que a poeta, rapper e estilista Tássia Reis deu à Trip TV. Na pauta? Ela é franca e intensa. Tássia deixa evidente o exercício de sua arte como crítica,  emancipação e não conformismo.

Ana Paula Vitorio

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